segunda-feira, 10 de março de 2014

As dificuldades de se adensar uma cidade

O espraiamento de Phoenix, Arizona, EUA. Dominic, Domínio Público

Muito se falou em mobilidade nos últimos meses [1], e é evidente por todos a situação de pane em que estão entrando diversas cidades brasileiras. Discute-se muito sobre como fazer a circulação das cidades voltar a fluir, mas as causas desses problemas não são todas tão óbvias como a contribuição do excesso de automóveis. As outras causas dos problemas de mobilidade urbana são bem mais sutis e envolvem uma rede questões urbanas como por exemplo: o espraiamento, a especulação imobiliária, a segregação e a desigualdade social.

Começando com a causa mais óbvia: o uso e a quantidade excessivos de carros. Para o carro foram construídas cidades de baixa densidade e espalhadas em uma grande área, de longas distâncias entre um ponto e outro, porque o carro precisa ser usado, mais carros precisam ser comprados e o carro ocupa espaço. As propagandas que estimulam a aquisição e o uso do carro são muito mais eficientes do que a conscientização de que este é um objeto causador do caos nas cidades e que o uso frequente deles deve ser reduzido.

Uma causa dos problemas de mobilidade relacionada ao usos dos carros é o espraiamento [2]. Para solucionar o espraiamento urbano, existe o adensamento urbano que consiste em reunir os equipamentos e os componentes da cidade em um espaço menor, seja verticalizando, ou seja simplesmente aproximando um local do outro extinguindo os vazios urbanos. Uma cidade adensada ou seja, compacta, otimiza o uso de equipamentos urbanos dispensando grandes gastos ao levar a infraestrutura até locais afastados passando por áreas vazias, diminui os percursos facilitando a circulação de quem está a pé e de bicicleta.

Então se o adensamento é uma solução para o problema de mobilidade nas cidades porque é tão difícil ver sua aplicação?

De acordo com o urbanista brasileiro Flávio Villaça [3] "através da segregação a classe dominante controla a produção e consumo do espaço urbano, sujeitando-o aos seus interesses." A grosso modo, os que têm poder econômico, querem os pobres cada vez mais longe, e conseguem. Tem se estipulado nas cidades o lugar dos ricos, da classe média e o lugar dos pobres, porque as cidades brasileiras consideram e aceitam a desigualdade na configuração dos espaços, logo, a estimula. Desta forma é do interesse das classes dominantes a segregação.

Outra dificuldade para o adensamento urbano é, segundo a urbanista Raquel Rolnik [4], a especulação imobiliária. Como ocorreu em
"Curitiba, que de fato promoveu um adensamento maior ao longo dos seus corredores de transporte público. Na prática, porém, o aumento de potencial construtivo em Curitiba gerou uma maior valorização do solo, mais metros quadrados de área construída, e apartamentos gigantes, cheios de vagas de automóveis, que atraíram pessoas que, no geral, não usam o transporte coletivo. Enquanto isso, a periferia da cidade continuou explodindo, e a população de baixa renda continuou enfrentando longos deslocamentos no transporte público."
Daí se vê como é difícil desvincular a desigualdade do desenho da cidade e trazer os mais pobres para o núcleo urbano e como há uma relação direta entre desigualdade e cidades espraiadas.

Projetos de adensamento devem ser extremamente cuidadosos levando em consideração a drenagem do solo, a boa iluminação de espaços abertos, a qualidade do transporte público, mas principalmente deve-se ter a consciência de que com carros as propostas acima perdem seu efeito. Se aumentamos a densidade dos centros urbanos ou o volume de escritórios por região incluindo o carro nesse plano, as cidades simplesmente parariam. Se concretizamos esse plano excluindo o carro da jogada, não precisaríamos dele.

A pergunta que fica: até quando faremos cidades espraiadas? Por conta delas hoje discutimos tanto sobre mobilidade, e de fato é o que está mais próximo do nosso alcance. Até quando desigualdade em forma de desenho urbano? É preciso, desvincular o planejamento urbano dessas que são hoje bases orientadoras para configuração dos espaços, e que tanto mal já fizeram às cidades.


Notas e Referências

[1] Interesse com o passar do tempo sobre "Mobilidade Urbana" no Google Trends.
[2] Espraiamento Urbano, ou Alastramento Urbano, é o aumento excessivo da área ocupada da cidade geralmente com zonas descoladas da malha principal.
[3] Efeitos do Espaço sobre o Social na Metrópole Brasileira.
[4] Plano Diretor de São Paulo: adensamento para quê? para quem?