sexta-feira, 21 de junho de 2013

Os Protestos em Poços de Caldas

Por Caroline Magalhães.

Ontem, dia 20 de junho, 80 cidades no país foram às ruas para se manifestar motivadas pela mesma gota d’água que fez o Brasil explodir em protestos nos últimos dias: o aumento da passagem de ônibus. Poços de Caldas, não ficou de fora e segundo a Polícia Militar reuniu 10 mil manifestantes. Assim como o resto do país, o protesto foi movido por uma intensa insatisfação que não surgiu agora; é um descontentamento de longa data causado pelo déficit na educação, na saúde e nos transportes em todo país e também, assim como em outros lugares, por problemas específicos de Poços, onde foi cogitado até a eliminação das charretes. Isso, fruto da diversidade falada pelo professor da UFRJ, Mauro Iasi (1) que diz que, o governo levou o povo a ser passivo: votar, voltar pra casa e deixar o governo resolver os problemas sem a pressão da população, e isso gerou uma despolitização que reflete nas manifestações que estamos tendo, onde é natural a heterogeneidade e é natural a falta de um rumo claro.

Manifestantes na Rua Rio Grande do Sul. Daniel Alfinito Rabelo

A heterogeneidade do movimento à parte, a manifestação em Poços de Caldas tinha um objetivo principal e métodos para alcançá-lo muito claros. A meta é que a passagem seja reduzida para 2,30, que se tenha a revisão de diversos itens para a melhor qualidade do serviço oferecido pela empresa Circullare, a quebra imediata do monopólio da única empresa de mobilidade urbana na cidade com o intuito de gerar concorrência, e o mais importante de todos: implantar um método de gestão e fiscalização transparente e participativo, já que essa fiscalização acreditem, é feita pela própria empresa que pode apresentar os dados da maneira que bem entender! Sem essa fiscalização a conquista dos outros objetivos é de pouco valor, ainda que se tenha duas empresas prestando o serviço, sem essa fiscalização, em pouco tempo esse quadro se repetirá e nós voltaremos à estaca zero.

Durante a manifestação foram escolhidos representantes de diversas áreas (estudantes secundaristas, universitários, representante da CTB, entidades civis entre outros), o mais coerente é que fossem pessoas que realmente fizessem o uso do ônibus no dia-a-dia, para compor o grupo dessa gestão participativa, e os mesmos terão um encontro com o prefeito, para um acordo referente às questões em pauta.

Deve-se lembrar que essas pequenas conquistas obtidas na noite de ontem foram conseguidas apesar de alguns fatores contraditórios ao que deveria ser o perfil do protesto. O movimento que nasceu apartidário foi invadido por políticos que levantaram suas bandeiras além de inserirem um carro de som que conduziu a manifestação por um tempo, conforme conveniência. Esse fato, causou revolta nos outros manifestantes  e o Movimento de Apoio ao Passe Livre publicou hoje, uma carta oficial se desculpando publicamente pelo ocorrido. 

Além disso o dono da empresa Circullare retirou os ônibus de circulação durante a passeata deixando na mão trabalhadores que só queriam voltar para suas casas, o que revelou um total desprezo pelo que o povo tanto falou, prezou e clamou durante o ato. No final da manifestação de ontem, entrevistamos alguns manifestantes pedindo a opinião sobre o que acharam do discurso do prefeito e foi possível ver certa insatisfação no rosto de alguns, dizendo que ele só ‘enrolou’ já que a resposta foi o comum e o esperado "nós precisamos analisar".  Alguns entrevistados também fizeram críticas à bandeiras de ideais que foram levantadas, como a da imagem de Che Guevara à frente da manifestação. Não se trata de seguir uma linha ideológica, se trata da manifestação do povo por insatisfações em comum, e nessa hora certas particularidades devem ser deixadas de lado.

Manifestantes em frente à Prefeitura. Daniel Alfinito Rabelo

Com todos os defeitos de um protesto, formado por pessoas estão aprendendo agora e aos poucos a fazer política, foi um show de cidadania,  assistido por pessoas no alto dos prédios que piscavam as luzes orgulhosamente. Inúmeros adolescentes que apesar de subestimados, pareciam entender a importância daquilo que estava acontecendo. Um povo que está aprendendo que é com luta que se conquista seus objetivos. Esperamos agora que a movimentação tenha a cada dia uma direção política mais bem definida, que não se permita ser domesticado pela mídia, que não pare e não se contente com a simples redução do preço das passagens e que prossiga firme e legítima.  Em breve contamos os próximos capítulos dessa história...


Referências:

Professor da UFRJ e presidente da Adufrj-SSind, Mauro Iasi analisa o grito das ruas
http://www.youtube.com/watch?v=MV8y8Dkgl8U